Publicado em: 11 nov 2015

BOLA NO CHÃO

      MARCOS SOUTO MAIOR (*)

                Desde criança que minhas brincadeiras eram em torno de dar trabalho, mesmo aos meus queridos pais, Hilton e Adélia! Apenas a bola de borracha que chutava nas paredes da Santos Dumont, em pleno sol quente de verão, pisava no calçamento de pedras do meio das ruas! De início, as bolhas no solado dos pés inchavam e doíam, mas logo os furava com uma agulha ou com a ponta da tesourinha. Com o barulho, os meninos logo saiam das suas casas para tirar no ‘par ou ímpar,’ quem de cada lado, tirava o centro para o início da partida. Um deles fazia também o papel de goleiro, balizado por dois tijolos prensados, tirados de uma construção próxima, que serviram de traves, no palco abençoado por Deus!

Passou um bom tempo e eis que uma bola de couro de boi, marrom escura, com os gomos costurados por fios grandes de agave retorcido, ensebado de gordura de porco para não estragar os pontos, chegou a mim, pelas mãos limpas de papai com advertência verbal de exigir notas altas no colégio marista Pio X. De estrutura raquítica, que dava para se contar as costelas, era obrigado por minha mãe, a tomar um prato fundo de sopa de feijão, ou de carne com verduras, que resistia engolir rápido, até que todos saíssem da grande mesa redonda.

A primeira chuteira que entrou no meu pé, era grande e foi emprestada pelo irmão do meu amigo, o gordo Márcio Toscano. Tive que complementar com algodão os bicos do par chuteira, guardando muito zelo, escovei e limpei, por que estavam suja. Já devidamente limpa, escondi por traz dos jarros de palmeiras no terraço de nossa casa, a fim de ninguém ver terminando o preparo. Se já não era craque, pelo menos corria na lateral direita, não passando de dez minutinhos para o técnico me trocar por outro jogador que estava na reserva.  Mesmo assim, meu pai entendia que o futebol para mim era mais importante do que estudar, chegando ao ponto de não ouvir resenhas esportivas nas emissoras de rádio e, muito menos ver os jogos nos estádios! Resultado: por causa da bola de futebol, fui transferido para o colégio do Professor Nery, exatamente onde a bola corria veloz, nos campos de futebol, quadras e nas pistas de corrida de cem metros, revezamento de quatro por quatro, salto à distância, conseguindo várias medalhas. Até uma ameaça de ser deportado ao internato de um colégio na cidade de Nazaré da Mata, em Pernambuco, onde todo menino danado tremia de medo de ficar longe da querida Paraíba!

Foi o único ano de reprovação, na minha vida, já no terceiro ano letivo de ginásio e resolvi, freando mais com a bola na minha frente, ingressar no curso clássico, no Lyceu Paraibano, e me preparando para a Faculdade de Direito da UFPB. Hoje, advogado militante e professor universitário, recebi honrosamente, das mãos do desportista Amadeus Rodrigues da Silva Júnior, atual Presidente da Federação Paraibana de Futebol, uma réplica perfeita da bola de futebol do Brasil em 1950. Diariamente, vou ao meu gabinete de trabalho, abro a porta fico de olho detidamente dirigido à direita, na mesma altura da cristaleira que acolhe as medalhas e os diplomas conferidos ao menino da bola futebolística, aí dedicando bons segundos de amor para sua reverendíssima excelência. É o mestre Vinícius, quem expressará o que todos pensamos: “Nunca pense que está sozinho quando você vive futebol, respira futebol. Isso significa que você faz parte dessa paixão mundial pela bola porque futebol, além de um esporte, é um ideal de vida.”

 

(*) Advogado e desembargador aposentado




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